
Existe uma perceção, bastante generalizada, de que natureza é sinónimo de bosques e florestas exuberantes. De árvores grandes entre as quais poderemos caminhar livremente enquanto pisamos lindos tapetes de folhagens multicolores. Ao longo de décadas, esta ideia tem perdurado no imaginário de muitos dos habitantes das grandes cidades, amantes de uma natureza de calendários e lindos postais. Mas a natureza é muito mais que isso.
Esta perceção de clichês de estampas bonitas tem produzido uma hipervalorização da vegetação arbórea em detrimento de outros tipos de formações vegetais. Deste modo, os espaços abertos com paisagens dominadas por diferentes tipos de vegetação nativa, herbácea e arbustiva, frequentemente são considerados como uma espécie de “ambientes incultos”, “lugares onde devem ser plantadas árvores”.
Por outro lado, também tem dominado a perceção de que os sub-bosques das florestas devem ser sempre cortados e eliminados. A principal justificação para promover estas práticas tem sido a prevenção de incêndios florestais. No entanto, como sabemos, existem diferentes tipos de florestas. Portanto, cortar sistematicamente a vegetação arbustiva e herbácea dos sub-bosques nem sempre é o mais indicado e, em alguns casos, pode ser até mesmo contraproducente. Um exemplo disso é o caso das florestas ripícolas, ou seja, aquelas que crescem junto aos cursos de água. Em geral, estas florestas são capazes de manter níveis de humidade bem mais elevados no ar e no solo (além de temperaturas mais baixas) do que outros tipos florestais, como é o caso dos pinhais. No auge da estação seca do verão, estes efeitos, em grande parte propiciados pela presença de sub-bosques densos dominados por espécies de plantas folhosas, reduzem o risco de incêndios.

Após grandes incêndios florestais, é frequentemente possível comprovar que as florestas ripícolas bem preservadas não só não ardem como, muitas vezes, funcionam como barreiras contra a rápida progressão dos fogos. Cortar massivamente a vegetação dos sub-bosques das silvas ripícolas aumenta frequentemente a circulação do ar quente, procedente do entorno destas florestas, o que aumenta a temperatura e reduz a humidade junto ao solo nestes ambientes.
Usar a expressão “limpar o bosque”, referindo-se ao corte indiscriminado da vegetação herbácea e arbustiva, é relegar uma grande variedade de espécies e ecossistemas à categoria de “lixo”. É preciso lembrar que é nos sub-bosques que reside grande parte da diversidade biológica das florestas, e é por isso que diversas espécies vegetais e animais deste tipo de ambientes estão protegidas. E tudo isso sem esquecer que as gerações mais jovens de árvores dos bosques se encontram nos estratos mais baixos, a pouca distância da superfície do solo, sob a forma de plântulas e plantas jovens. Assim sendo, eliminar reiteradamente a vegetação do sub-bosque é comprometer gravemente o futuro da floresta.
Nas zonas mais abertas, não propriamente florestais, é também nos matos que muitas espécies de insetos polinizadores e aves dispersoras de sementes encontram miríades de flores e frutos carnosos. De facto, é neste tipo de ambientes que a produtividade de flores e frutos deste tipo costuma ser maior.
As tão repudiadas giestas (p. ex., Cytisus spp., Fabaceae; veja o site: https://flora-on.pt) e outras espécies de leguminosas arbustivas e herbáceas, comuns nos matos, são vitais nos ecossistemas onde habitam. Além de fixarem o nitrogénio atmosférico no solo, por meio das bactérias simbióticas que habitam os nódulos das suas raízes, produzem grandes quantidades de flores extremamente importantes para um grande número de insetos polinizadores. Portanto, mantê-las nos seus respectivos ambientes naturais, em densidades moderadas ou baixas, é uma prática que promove a manutenção dos seus serviços ecossistémicos e, ao mesmo tempo, possibilita aumentar a segurança em termos de prevenção de incêndios de grandes intensidades e dimensões.
Os matos têm uma grande importância no contexto da diversidade biológica das regiões de clima mediterrâneo. A recente descoberta de Linaria almadensis (Plantaginaceae) nas arribas do Gargalo do Tejo, no concelho de Almada, é um bom exemplo disso. Atualmente, estamos a viver uma crise de biodiversidade e de bioabundância sem precedentes na Europa e noutros continentes. Em Portugal, diversas comunidades vegetais de arbustos baixos e herbáceas em zonas de dunas costeiras estão seriamente ameaçadas. Nas últimas décadas, os principais impactos e ameaças provêm de 4 grandes projetos urbanísticos ligados ao turismo costeiro, com a proliferação de urbanizações de casas em ambientes dunares, resorts, campos de golfe, piscinas, etc.

Existe uma verdadeira guerra não declarada contra os matos. A ideia de “cortar o máximo para não queimar” tem levado também a situações de simplificação ambiental extremas que em nada ajudam a reverter este quadro. De facto, esta visão simplificada e simplificadora pode ser contraproducente e vai na direção oposta aos objetivos acordados no âmbito da União Europeia. Nos últimos anos têm-se verificado que muitos dos aceiros em que a vegetação autóctone é drasticamente eliminada se convertem rapidamente em portas de entrada e corredores de dispersão de acácias e outras espécies exóticas invasoras. Quando estes corredores de acácias são abandonados, por dois ou mais anos, convertem-se em verdadeiras faixas de propagação de incêndios. 5
Não tem sentido destruir completamente a vegetação autóctone para que esta não se queime. A principal finalidade dos aceiros e das práticas de corte seletivo de vegetação é reduzir a carga de material combustível de forma a desacelerar a propagação do fogo e permitir uma atuação mais eficaz dos meios de combate aos incêndios florestais. Mas estas práticas não nos livrarão dos incêndios. Assim sendo, mesmo nas áreas onde é imprescindível levar a cabo trabalhos de prevenção de fogos florestais, é possível deixar diversos tipos de arbustos em baixa densidade, sem que isso represente um risco real. Especial atenção deve ser dada às áreas de matos mistos com zimbros (Juniperus spp.; Cupressaceae) e outras espécies arbustivas e herbáceas, devido às suas importâncias ecológicas nos ecótonos de transição entre formações abertas e bosques. É preciso prestar especial atenção também àquelas espécies cujas populações se encontram em perigo ou num estado de conservação precário.

E não nos esqueçamos de que, se queremos realmente reduzir a incidência de grandes incêndios florestais, é preciso trabalhar decididamente e com afinco contra a progressão das mudanças climáticas antrópicas.


J.C. Guix.
© PROJETO NEOPANGEA / CICLOS
Série Laurus, nº 5. Fevereiro de 2026
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